A Copa do Mundo da FIFA de 2026, que será realizada nos Estados Unidos, México e Canadá entre 11 de junho e 19 de julho, representa uma oportunidade histórica para o Brasil encerrar um jejum de 24 anos sem títulos. No entanto, a empolgação esportiva contrasta brutalmente com uma realidade econômica devastadora para os torcedores da seleção pentacampeã: assistir a uma única partida da Seleção custará no mínimo US$ 2.100, valor equivalente a sete meses de salário mínimo no Brasil.
O detalhamento das despesas para um torcedor brasileiro que deseja assistir à estreia da seleção contra o Marrocos, no dia 11 de junho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, é impressionante. Uma passagem aérea de ida e volta de São Paulo ou Rio de Janeiro custa cerca de US$ 950. Duas noites de hospedagem em um hotel três estrelas chegam a US$ 450, preços inflacionados pela demanda sem precedentes para o evento. Alimentação e transporte local somam pelo menos US$ 600. Além de tudo isso, há o ingresso mais barato para a partida, com preço mínimo de US$ 105.
Para quem deseja acompanhar o Brasil em seus três jogos da fase de grupos, que incluem também a partida contra o Haiti em 19 de junho na Filadélfia e contra a Escócia em 24 de junho em Miami, os pacotes turísticos chegam a custar US$ 11.000 por pessoa, sem incluir as refeições. A distância entre Filadélfia e Miami, de quase 1.900 quilômetros, encarece os custos de viagem e hospedagem, tornando a cobertura completa da seleção um privilégio reservado à elite econômica.
Ancelotti tem um elenco repleto de estrelas que jogam nos melhores clubes da Europa. Vinicius Junior, atacante do Real Madrid e eterno candidato à Bola de Ouro, é sua principal ameaça ofensiva. Ele é acompanhado por jogadores como Raphinha, que brilha no Barcelona; Alisson, titular indiscutível no Liverpool; Marquinhos, capitão do PSG; Militão, pilar do Real Madrid; Bruno Guimarães, titular do Newcastle United; Rodrygo, também do Real Madrid; e Richarlison, que se destaca no Tottenham.
No entanto, a maior incógnita é Neymar. O craque do Al-Hilal, da Arábia Saudita, não é convocado há mais de um ano devido ao baixo rendimento e às lesões recorrentes. Ancelotti afirmou que Neymar tem "seis meses para mostrar sua qualidade", mas sua participação na Copa do Mundo está longe de ser garantida. Aos 34 anos, o jogador, outrora considerado o herdeiro de Pelé e Ronaldinho, pode ficar de fora do torneio mais importante de sua carreira.
O Brasil estará no Grupo C, juntamente com Escócia, Marrocos e Haiti. Em um torneio em que os melhores terceiros colocados avançam para as oitavas de final, a lógica sugere que o Brasil deve se classificar sem dificuldades. Marrocos, 32º colocado no ranking da FIFA, surpreendentemente chegou às semifinais da Copa do Mundo do Catar 2022 e promete dar trabalho. A Escócia representa um adversário europeu com uma rica história, enquanto o Haiti, que se classificou graças à expansão do torneio para 48 equipes, será o adversário mais acessível do grupo.
O contexto social amplifica a frustração. Os governos não subsidiaram as viagens, nem a FIFA criou fundos de acesso para torcedores de baixa renda. Os hotéis aproveitaram a demanda para triplicar ou até quintuplicar suas tarifas habituais. E os trabalhadores brasileiros que ganham US$ 1.621 por mês enfrentam a realidade de que a Copa do Mundo, realizada em um país vizinho das Américas, é economicamente mais inacessível do que se fosse realizada na Europa ou na Ásia.
A pergunta que ecoa no Brasil é simples, porém dolorosa: para quem é realmente a Copa do Mundo? Para quem ama futebol ou para quem tem condições de assistir? A resposta em 2026 parece clara: para o segundo grupo. O Brasil, berço do futebol e hexacampeão mundial, enfrenta o paradoxo de seu povo não poder presenciar a busca pela sétima estrela ao vivo.
Carlo Ancelotti resume o desafio: ele tem cinco meses, de janeiro a maio, para encontrar o ritmo que o Brasil não conseguiu demonstrar durante as eliminatórias. Ele tem um elenco repleto de talento individual, mas precisa transformá-lo em um time coeso que jogue com a magia que historicamente caracteriza o futebol brasileiro. E ele enfrenta a pressão de toda uma nação que, mesmo sem poder estar nas arquibancadas, exigirá nada menos que a glória.